terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ensaio Extra - Turma de Domingo.

Olá Grupo!

Desculpe a demora.

O ensaio rola sim na Quinta-feira na minha escola. O processo foi mais demorado do que eu imaginava.Darei o nome de vocês na portaria, vocês se identifiquem como parte do grupo teatral que solicitou um "espaço" para um ensaio extra.

- Endereço da Escola:
RUA MONSENHOR DE ANDRADE, 798
Brás - São Paulo - SP - CEP 03008-001

- Página Oficial da Escola:
http://www.etecarlosdecampos.com.br

- Localização da Escola específicada:
http://www.etecarlosdecampos.com.br/localizacao.htm

ps.: Se por acaso acontecer algo que nos impessa de ir lá, posto algo até às 7h da manhã de quinta-feira. Mas somente se for urgente mesmo!

Já mandei e-mail para todos. O Blog é somente uma "garantia".

Beijos!

domingo, 19 de outubro de 2008

Propostas

A T A D E R E U N I Ã O


DIA: 19 / 10 /2008

HORA: 14:00hr AS 17:00hr


Participantes:

Diego , Sandra , Jr , Marcos e Luiz Carlos



1º ASSUNTO DISCUTIDO:

Proposta de trabalho para a reunião a ser realizada no dia 09 / 11 / 2008, às 15:oo hr no espaço O LUGAR.

Motivo desta reunião: discutir com os outros Grupos de Teatro Vocacional o que estaremos fazendo enquanto o Teatro Vocacional estará de Férias na Prefeitura, provavelmente entre o período de Novembro/08 à Março/09.

O que decidimos: Estaremos montando um Happening no espaço O LUGAR na data de 18/12/2008 as 20:30 hs.

O que estará acontecendo: Por várias partes do espaço estaremos espalhados com nossos personagens e misturando nos com os outros 03 grupos da região do centro. Promovendo uma apresentação que levará a outra e assim por diante, até todos ter andado pelo espaço e assistir aos 04 Grupos (Nós {O Lugar}, Biblioteca, Olido e Satyrus).

Neste dia devemos já ter o nome do grupo definido, portanto TODOS devem participar com idéias.




2º ASSUNTO DISCUTIDO:

A continuidade do Grupo.

Como a grande maioria das pessoas gostaria e quer continuar no grupo e o Espaço O LUGAR também tem interesse, então montamos um cronograma para até Março de 2009

Novembro/08: Apresentação nos dias 01 (no tendal da Lapa) e 28/11 (no espaço O LUGAR), ensaios todos os sábados no mesmo horário (14:00 as 17:00);

Dezembro/08: Aos finais de semana ir estudando como acontecerá o Happening do dia 18/12/08;

Férias no período de 20 de Dezembro de 2008 até 11 de Janeiro de 2009;

Janeiro/09: Voltar todos com uma proposta do que gostariam de fazer, levar material para trabalharmos nos próximos 06 meses e continuar com o trabalho já desenvolvido (Agora vou contar...);

Fevereiro e Março/09: Dar procedimento ao estudo e avaliar as possibilidades e utilização do nosso trabalho em outros lugares públicos;




3º ASSUNTO DISCUTIDO:

Definição da data e horário da nossa apresentação no espaço O LUGAR em novembro, acertamos as seguintes coisas:

Data: 28/11/2008

Horas: 20:30 hrs.

Local: O Lugar – Rua Augusta, 325 – Consolação

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Peça da turma de sábado (escrita por Juliano)

Peça:

O que você é quando ninguém está?

Chamada: atores recolhem anedotas do público minutos antes da peça:

Improviso do dia
Dormindo eu dirijo meus sonhos
Faço tudo virar cavalo
Eu sou gari / Minhas bonecas choram
Danço sozinho à luz de velas
Desejo crianças

1º ATO: IMPROVISO DO DIA

As cortinas lentamente vão se abrindo. O que o público vê: dois grupos de atores em diagonal. No fundo do palco, entre estes grupos, uma série de objetos dependurados uns aos outros. Em frente a tudo e a todos, o ponto mais próximo da platéia está o baú de segredos, que foram tirados de pessoas que ali estão alojadas em suas cadeiras e suas bacias.
Um primeiro que se afasta da fila, lentamente, chega próximo da caixa e a fita intensamente, então, começa a buscar com as mãos enterradas nela, algo. Depois de vasculhar e retirar da caixa um papel, lê para si, e devolve em cima da caixa para que o próximo também veja. Recua dois passos, de modo a explicitar seu espaço cênico que está entre os atores no fundo e a caixa. E desenvolve sua interpretação daquilo que acabara de ler. ― Pára! Congelando o ator em cena, outro ator sai da fila em diagonal oposta e se dirige até o papel que está sobre a caixa. Após ler o segredo, introduz uma nova interpretação utilizando-se do ator que já está em cena. Formulada uma nova idéia do segredo espera-se o próximo; ― Pára! Caminha para a caixa um terceiro ator que depois da leitura assumirá o lugar do primeiro ator em cena, este irá sair do espaço cênico ficando perfilado de costas para o público ao lado da coluna. Assim, todos vão passando e trazendo possibilidades diversas, os atores vão ocupando as laterais do palco.
Encerrando o primeiro ato as luzes diminuem.



2º ATO: Dormindo eu dirijo meus sonhos

Posição neutra de cena (os atores formam um anel no centro do palco deixando espaços na frente e atrás).

Há um único ser diante da caixa para desvendar um novo segredo. Ele se debruça na caixa até achar um novo papel a ser lido. Lê-se: ― Dormindo eu dirijo meus sonhos. Se volta para os colegas e segue comunicando a grande tarefa que será realizada por fragmentos de cenas com o apoio do coro questionador.
Como os sonhos se passam na cabeça do sujeito, o espaço cênico deste ato deve seguir a composição de um cérebro em conflito.
Amontoados ao fundo no lado esquerdo do palco o coro. Em frente dos objetos alguns atores objetos. O ator assume de prontidão o travesseiro que vai buscar no fundo do palco a idéia de diretor deus. Para auxílio nas cenas que irá formular, o diretor Deus conta com alguns atores no fundo do palco e o coro que irá caminhar no corredor lateral das cenas. Entre cada cena o coro preenche com uma ladainha contínua, dando o tempo de rearranjo do diretor para cada cena.
SILÊNCIO! Todos parados, apenas o diretor Deus caminha à frente e diz o segredo: ― Dormindo eu dirijo meus sonhos...Retorna as cenas e conclui pedindo ao coro mais afinação.
O coro é um elemento dentro desta cena que pode gozar, levemente, de livre arbítrio. E por isso se torna em alguns momentos o questionador de um diretor Deus, fazendo arranjos, agrade ou desagrade o chefe.
Cenas estudadas:

A revelação do filho;
Um jeitinho que eu gosto;
Não faça o que eu faço.

As luzes vão diminuindo e por último um foco breve no coro que desalinha.




3º ATO: Faço tudo virar cavalo

Posição neutra de cena.
A criança curiosa em frente à caixa lança a mão para dentro e saca um papel que a deixa muito alegre. Lê-se: ― Faço tudo virar cavalo. O ator mirim vai ao fundo do palco, pega a vassoura e sai cavalgando forte. ― Pocotó, pocotó, pocotó! Cansado, larga a vassoura amarrada no braço de um adulto que está de costas e que se sente incomodado. A criança toma fôlego, corre novamente até os objetos e pega um ursinho que parece não dar conta do o peso do menino.
SILÊNCIO! O ator mirim vai até o público e lê o papel que está em cima da caixa: ― Faço tudo virar cavalo. Ele retorna ao centro da cena, investiga os objetos com os olhos e se desinteressa, percebe que entre os adultos no círculo uma menina se esquiva, envergonhada de vontade de brincar. Ele a chama. Ela resiste um pouco, mas acaba indo brincar.
― Você pode ser meu cavalinho?
― E você, pode ser o meu cavalinho!?
― O que é, o que é? Se você acertar eu serei o cavalo, mas se errar, me leva.
― Eu aceito.
― O que é, o que é? Que entra na água e não se molha?
― Não sabe?! A sombra.
O menino sai montado no cavalinho que vai na direção do público, depois faz a volta e sai, lentamente, pelo lado do palco acompanhado pelo foco de luz.



4º ATO: Eu sou gari / minhas bonecas choram

Posição neutra de cena.
Dois atores diante da caixa. Dois segredos a serem desenvolvidos simultaneamente com a possibilidade de encerrarem juntos este ato. Após pegarem os segredos, os atores se dirigirão aos demais, dividindo-os em dois grupos para a elaboração de duas cenas que se iniciam separadamente, mas que acham o final juntas.
Um ator dará vida a um gari, que se acha invisível aos olhos dos passantes pelo fato de trajar roupas de gari. Quando é indagado:
― O que você faz quando ninguém está por perto?
― Eu trabalho.
― Mas as pessoas estão a sua volta.
― Não estão. Não olham para aquilo que sou, estou invisível e faço coisas que não faria se estivesse com roupas apaziguadas. Quando vem uma dona bacana, eu vou mansinho, me aproximo e fico na sua direção, varrendo. Daí a bacanuda tenta me dá uma fita, eu no rabo de olho cerco a bicha e ela, já tensa, dá uma esbaforida. Você pode não acreditar, ela gira nas tamancas e não me olha, e vai ficando em ebulição, eu fico com dó e solto a franquinha, linda por sinal.
SILÊNCIO! O gari dá as costas para os passantes, vai até o bilhete e diz:
― Eu sou gari.
O outro ator fará a mãe das bonecas que vivem isoladas dentro da estrutura de ferro de um viaduto urbano. Neste espaço restrito, ela cultiva o hábito de cuidar e remontar bonecas que lhe trazem por partes.
A cena do gari se inicia antes, e quando parece encerrada, o foco de luz incide no quarto de bonecas, onde a mulher leva sua vida diária. Depois de alguns minutos ela escuta uma voz que a chama:
― Dita! Cantando: ”Subir o morro / é que se não eu morro / mas tenho que subir o morro / é que se não eu morro. Deixei lá no meu barraco / minha nega Dita / meu cachorro vira-lata / e também meu rádio espiga. Subir o morro...
― Que é!
― Trouxe um bagulho pra você.
― Sobe aí pô. (Ele faz o caminho de subida)
― Que tem aí neste saco?
― Três bracinhos...E! Uma pernota, ZERADA!
Ela fica contente e diz:
― Poxa! Mas, você disse que ia me trazer umas cabeças de Barbie.
― Ah! Cabeça de Barbie ta difícil...A molecada vê uma cabecinha de Barbie na boca do lixo, vai lá e abocanha. Não esquenta Dita! Uma hora eu arrumo.
― As menina tá com sede!
― AS MENINAS, sei sim. Olha aqui! “51”
Bebem, se olham atrevidamente e vão ficando quietos.
SILÊNCIO! A Dita caminha mais à frente da cena e diz: ― As minhas bonecas choram.
E retorna na cena.
― Sabe Dita! Eu acho que você perde tempo. Você podia tá bem, com casa, móveis e casinha de Barbie...





5º ATO: Danço sozinho à luz de velas

Posição neutra de cena.
Um ator retira o segredo da caixa. “Eu danço sozinho à luz de velas”. Lentamente, como se estivesse a pensar no que fazer com aquele segredo, chama todos para o fundo do palco e alguns cochicham a idéia.
Esta cena será desenvolvida em dois planos:
No primeiro plano um homem dança sozinho iluminado por uma vela (na frente do palco, mais para o lado esquerdo).
No segundo plano uma cantora “drag queen” com vestido longo canta um bolero; Quizas, quizas, quizas...Diante de um bar noturno onde se encontram pessoas usando máscaras em mesas e um casal dançante de namorados. A mulher, conforme a música vai acontecendo, passa das mãos do namorados para as mãos do solitário, que não a percebe (recurso black-out), mas seu namorado fica desolado por alguns instantes, até que ela volta para seus braços.
No final da música, o homem vai até a vela que se acendeu, logo no início da cena, e apaga-a. Caminha para a caixa e diz:
― Danço sozinho à luz de velas.
― Do que você ta falando?
― Tô falando da Cibele. Um milagre né.
Benedita vai ficando brava.
― Você muda a conversa ou vai embora.
― Falo de coração!
― Ela o interrompe e o coloca para fora.
― Vai seu ordinário, sai da minha casa!
Já lá no chão ele resmunga:
― Casa, há há há, isso?
O foco vai na Dita, que pega Cibele no colo e diz:
― Não chora minha filhinha.
As luzes se apagam.

6º ATO: Desejo crianças

Posição neutra de cena.
Um ator lê o último segredo da peça, e se nega a fazê-lo. Passa para outro, que lê e fica em choque. Então, todos curiosíssimos, correm para saber do que se trata e lêem o bilhete. Frustrados, saem com o andar rápido até o limite do palco-cochia. Ficam postados de costas para a cena. Um terceiro ator que resta no meio do palco, ferozmente, heroicamente, pega o bilhete e vai, lentamente, descobrindo que ele entrou em apuros e, como é o melhor ator da companhia, deverá fazer o personagem a qualquer custo. Os três primeiros que leram o bilhete já estão em cena.
― Oi menino!
O primeiro ator que se negou a fazer o personagem e ficou isolado do outro lado do palco se surpreende com a resolução de cena que se inicia. E diz, emburrado:
― Oi!
― Como é seu nome?
― Pedro.
― Bonito nome, lembra pedra né! Força, legal!
O menino entediado.
― Você gosta de chocolate?
― Gosto de chocolate ao leite.
― Na minha casa eu tenho chocolate preto e branco. Eu sou seu vizinho, moro na rua de baixo. Hummm! Você quer buscar o chocolate?
―Quero! Quero! Vira-se todo alegre. Mas, aos pouquinhos vai identificando o sujeito.
― Vamos então!
― Dor de barriga. Quero minha mãe.
― Sua mãe! Aonde?
― Vem já, foi no mercado.
― Ah! Então vamos logo lá!
― Não posso não, eu lembrei que eu tenho tarefa, tenho vinte probleminhas de matemática, a tabuada do um ao nove, o mapa do mundo pra desenhar e e e cinco livros pra ler até amanhã.
Com a paciência esgotada o sujeito prepara-se para o bote fatal, quando de repente, surge a mãe do menino.
― Marcos Paulo! Já disse pra você...
O homem range os dentes para o menino, que sai rindo puxado pela mãe.
Escuridão final. Os atores na boca do palco para os cumprimentos.




































quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sobre o olhar de poeta...

26/10/2004 - 02h56
Rubem Alves: A complicada arte de ver
Rubem Alves - colunista da Folha de S.Paulo
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Rubem Alves, 71, educador, escritor. Livros novos para crianças e adultos-crianças: "Os Três Reis" (Loyola) e "Caindo na Real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o Tempo Atual" (Papirus).Site: www.rubemalves.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u947.shtml