sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Peça da turma de sábado (escrita por Juliano)

Peça:

O que você é quando ninguém está?

Chamada: atores recolhem anedotas do público minutos antes da peça:

Improviso do dia
Dormindo eu dirijo meus sonhos
Faço tudo virar cavalo
Eu sou gari / Minhas bonecas choram
Danço sozinho à luz de velas
Desejo crianças

1º ATO: IMPROVISO DO DIA

As cortinas lentamente vão se abrindo. O que o público vê: dois grupos de atores em diagonal. No fundo do palco, entre estes grupos, uma série de objetos dependurados uns aos outros. Em frente a tudo e a todos, o ponto mais próximo da platéia está o baú de segredos, que foram tirados de pessoas que ali estão alojadas em suas cadeiras e suas bacias.
Um primeiro que se afasta da fila, lentamente, chega próximo da caixa e a fita intensamente, então, começa a buscar com as mãos enterradas nela, algo. Depois de vasculhar e retirar da caixa um papel, lê para si, e devolve em cima da caixa para que o próximo também veja. Recua dois passos, de modo a explicitar seu espaço cênico que está entre os atores no fundo e a caixa. E desenvolve sua interpretação daquilo que acabara de ler. ― Pára! Congelando o ator em cena, outro ator sai da fila em diagonal oposta e se dirige até o papel que está sobre a caixa. Após ler o segredo, introduz uma nova interpretação utilizando-se do ator que já está em cena. Formulada uma nova idéia do segredo espera-se o próximo; ― Pára! Caminha para a caixa um terceiro ator que depois da leitura assumirá o lugar do primeiro ator em cena, este irá sair do espaço cênico ficando perfilado de costas para o público ao lado da coluna. Assim, todos vão passando e trazendo possibilidades diversas, os atores vão ocupando as laterais do palco.
Encerrando o primeiro ato as luzes diminuem.



2º ATO: Dormindo eu dirijo meus sonhos

Posição neutra de cena (os atores formam um anel no centro do palco deixando espaços na frente e atrás).

Há um único ser diante da caixa para desvendar um novo segredo. Ele se debruça na caixa até achar um novo papel a ser lido. Lê-se: ― Dormindo eu dirijo meus sonhos. Se volta para os colegas e segue comunicando a grande tarefa que será realizada por fragmentos de cenas com o apoio do coro questionador.
Como os sonhos se passam na cabeça do sujeito, o espaço cênico deste ato deve seguir a composição de um cérebro em conflito.
Amontoados ao fundo no lado esquerdo do palco o coro. Em frente dos objetos alguns atores objetos. O ator assume de prontidão o travesseiro que vai buscar no fundo do palco a idéia de diretor deus. Para auxílio nas cenas que irá formular, o diretor Deus conta com alguns atores no fundo do palco e o coro que irá caminhar no corredor lateral das cenas. Entre cada cena o coro preenche com uma ladainha contínua, dando o tempo de rearranjo do diretor para cada cena.
SILÊNCIO! Todos parados, apenas o diretor Deus caminha à frente e diz o segredo: ― Dormindo eu dirijo meus sonhos...Retorna as cenas e conclui pedindo ao coro mais afinação.
O coro é um elemento dentro desta cena que pode gozar, levemente, de livre arbítrio. E por isso se torna em alguns momentos o questionador de um diretor Deus, fazendo arranjos, agrade ou desagrade o chefe.
Cenas estudadas:

A revelação do filho;
Um jeitinho que eu gosto;
Não faça o que eu faço.

As luzes vão diminuindo e por último um foco breve no coro que desalinha.




3º ATO: Faço tudo virar cavalo

Posição neutra de cena.
A criança curiosa em frente à caixa lança a mão para dentro e saca um papel que a deixa muito alegre. Lê-se: ― Faço tudo virar cavalo. O ator mirim vai ao fundo do palco, pega a vassoura e sai cavalgando forte. ― Pocotó, pocotó, pocotó! Cansado, larga a vassoura amarrada no braço de um adulto que está de costas e que se sente incomodado. A criança toma fôlego, corre novamente até os objetos e pega um ursinho que parece não dar conta do o peso do menino.
SILÊNCIO! O ator mirim vai até o público e lê o papel que está em cima da caixa: ― Faço tudo virar cavalo. Ele retorna ao centro da cena, investiga os objetos com os olhos e se desinteressa, percebe que entre os adultos no círculo uma menina se esquiva, envergonhada de vontade de brincar. Ele a chama. Ela resiste um pouco, mas acaba indo brincar.
― Você pode ser meu cavalinho?
― E você, pode ser o meu cavalinho!?
― O que é, o que é? Se você acertar eu serei o cavalo, mas se errar, me leva.
― Eu aceito.
― O que é, o que é? Que entra na água e não se molha?
― Não sabe?! A sombra.
O menino sai montado no cavalinho que vai na direção do público, depois faz a volta e sai, lentamente, pelo lado do palco acompanhado pelo foco de luz.



4º ATO: Eu sou gari / minhas bonecas choram

Posição neutra de cena.
Dois atores diante da caixa. Dois segredos a serem desenvolvidos simultaneamente com a possibilidade de encerrarem juntos este ato. Após pegarem os segredos, os atores se dirigirão aos demais, dividindo-os em dois grupos para a elaboração de duas cenas que se iniciam separadamente, mas que acham o final juntas.
Um ator dará vida a um gari, que se acha invisível aos olhos dos passantes pelo fato de trajar roupas de gari. Quando é indagado:
― O que você faz quando ninguém está por perto?
― Eu trabalho.
― Mas as pessoas estão a sua volta.
― Não estão. Não olham para aquilo que sou, estou invisível e faço coisas que não faria se estivesse com roupas apaziguadas. Quando vem uma dona bacana, eu vou mansinho, me aproximo e fico na sua direção, varrendo. Daí a bacanuda tenta me dá uma fita, eu no rabo de olho cerco a bicha e ela, já tensa, dá uma esbaforida. Você pode não acreditar, ela gira nas tamancas e não me olha, e vai ficando em ebulição, eu fico com dó e solto a franquinha, linda por sinal.
SILÊNCIO! O gari dá as costas para os passantes, vai até o bilhete e diz:
― Eu sou gari.
O outro ator fará a mãe das bonecas que vivem isoladas dentro da estrutura de ferro de um viaduto urbano. Neste espaço restrito, ela cultiva o hábito de cuidar e remontar bonecas que lhe trazem por partes.
A cena do gari se inicia antes, e quando parece encerrada, o foco de luz incide no quarto de bonecas, onde a mulher leva sua vida diária. Depois de alguns minutos ela escuta uma voz que a chama:
― Dita! Cantando: ”Subir o morro / é que se não eu morro / mas tenho que subir o morro / é que se não eu morro. Deixei lá no meu barraco / minha nega Dita / meu cachorro vira-lata / e também meu rádio espiga. Subir o morro...
― Que é!
― Trouxe um bagulho pra você.
― Sobe aí pô. (Ele faz o caminho de subida)
― Que tem aí neste saco?
― Três bracinhos...E! Uma pernota, ZERADA!
Ela fica contente e diz:
― Poxa! Mas, você disse que ia me trazer umas cabeças de Barbie.
― Ah! Cabeça de Barbie ta difícil...A molecada vê uma cabecinha de Barbie na boca do lixo, vai lá e abocanha. Não esquenta Dita! Uma hora eu arrumo.
― As menina tá com sede!
― AS MENINAS, sei sim. Olha aqui! “51”
Bebem, se olham atrevidamente e vão ficando quietos.
SILÊNCIO! A Dita caminha mais à frente da cena e diz: ― As minhas bonecas choram.
E retorna na cena.
― Sabe Dita! Eu acho que você perde tempo. Você podia tá bem, com casa, móveis e casinha de Barbie...





5º ATO: Danço sozinho à luz de velas

Posição neutra de cena.
Um ator retira o segredo da caixa. “Eu danço sozinho à luz de velas”. Lentamente, como se estivesse a pensar no que fazer com aquele segredo, chama todos para o fundo do palco e alguns cochicham a idéia.
Esta cena será desenvolvida em dois planos:
No primeiro plano um homem dança sozinho iluminado por uma vela (na frente do palco, mais para o lado esquerdo).
No segundo plano uma cantora “drag queen” com vestido longo canta um bolero; Quizas, quizas, quizas...Diante de um bar noturno onde se encontram pessoas usando máscaras em mesas e um casal dançante de namorados. A mulher, conforme a música vai acontecendo, passa das mãos do namorados para as mãos do solitário, que não a percebe (recurso black-out), mas seu namorado fica desolado por alguns instantes, até que ela volta para seus braços.
No final da música, o homem vai até a vela que se acendeu, logo no início da cena, e apaga-a. Caminha para a caixa e diz:
― Danço sozinho à luz de velas.
― Do que você ta falando?
― Tô falando da Cibele. Um milagre né.
Benedita vai ficando brava.
― Você muda a conversa ou vai embora.
― Falo de coração!
― Ela o interrompe e o coloca para fora.
― Vai seu ordinário, sai da minha casa!
Já lá no chão ele resmunga:
― Casa, há há há, isso?
O foco vai na Dita, que pega Cibele no colo e diz:
― Não chora minha filhinha.
As luzes se apagam.

6º ATO: Desejo crianças

Posição neutra de cena.
Um ator lê o último segredo da peça, e se nega a fazê-lo. Passa para outro, que lê e fica em choque. Então, todos curiosíssimos, correm para saber do que se trata e lêem o bilhete. Frustrados, saem com o andar rápido até o limite do palco-cochia. Ficam postados de costas para a cena. Um terceiro ator que resta no meio do palco, ferozmente, heroicamente, pega o bilhete e vai, lentamente, descobrindo que ele entrou em apuros e, como é o melhor ator da companhia, deverá fazer o personagem a qualquer custo. Os três primeiros que leram o bilhete já estão em cena.
― Oi menino!
O primeiro ator que se negou a fazer o personagem e ficou isolado do outro lado do palco se surpreende com a resolução de cena que se inicia. E diz, emburrado:
― Oi!
― Como é seu nome?
― Pedro.
― Bonito nome, lembra pedra né! Força, legal!
O menino entediado.
― Você gosta de chocolate?
― Gosto de chocolate ao leite.
― Na minha casa eu tenho chocolate preto e branco. Eu sou seu vizinho, moro na rua de baixo. Hummm! Você quer buscar o chocolate?
―Quero! Quero! Vira-se todo alegre. Mas, aos pouquinhos vai identificando o sujeito.
― Vamos então!
― Dor de barriga. Quero minha mãe.
― Sua mãe! Aonde?
― Vem já, foi no mercado.
― Ah! Então vamos logo lá!
― Não posso não, eu lembrei que eu tenho tarefa, tenho vinte probleminhas de matemática, a tabuada do um ao nove, o mapa do mundo pra desenhar e e e cinco livros pra ler até amanhã.
Com a paciência esgotada o sujeito prepara-se para o bote fatal, quando de repente, surge a mãe do menino.
― Marcos Paulo! Já disse pra você...
O homem range os dentes para o menino, que sai rindo puxado pela mãe.
Escuridão final. Os atores na boca do palco para os cumprimentos.




































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